O Contexto Histórico das Condecorações Escoteiras

Uma vez me disseram que nossa organização (União dos Escoteiros do Brasil) é excelente para “puxar a orelha”, mas péssima para reconhecer e valorizar. As vezes demoramos muito para agradecer bons serviços e ações de destaque. Talvez seja um exagero, mas temos que estar sempre atentos, pois é muito bacana fazer um bom reconhecimento, valorizar ações de destaque de pessoas que muitas vezes contribuem (e muito) para o desenvolvimento do escotismo. Legal para quem homenageia e para quem é homenageado.

Uma das maneiras de reconhecer os serviços de nossos voluntários é através da outorga das condecorações escoteiras. Esta tem sido uma prática desde a chegada do Escotismo no Brasil. Segue abaixo um texto muito bom, que explica o contexto histórico de cada uma das condecorações escoteiras. O texto não é meu, mas como está muito bem escrito resolvi transcrevê-lo:

Medalhas simbolizam o apreço, gratidão, honra e reconhecimento às ações exemplares de abnegação, dedicação, caráter, coragem ou altruísmo de alguém para sua coletividade. É o modo pelo qual as sucessivas gerações recordam ou aprendem fatos e feitos que, de outra forma, seriam esquecidos. Por isso, o valor de uma condecoração está na razão direta da imparcialidade e do rigor aplicado aos critérios de concessão.

No Movimento Escoteiro, já na década de 1920, as condecorações foram previstas nos estatutos de várias Associações, Federações e Conselhos. Contudo, o registro sistemático das concessões teve início em 1947. Antes desta data, há registros completos apenas dos agraciados com o Tapir de Prata desde quando o primeiro foi concedido para Baden-Powell em 1936.

Os regulamentos escoteiros estabelecem que “ainda que os escoteiros e chefes escoteiros tenham como dever precípuo a prática do bem, são eles por motivo de qualquer ação meritória excepcional, digna de louvores e recompensas”. Isso se dá por uma das seguintes condecorações:

Agradecimento: Medalha de Gratidão e Cruz de São Jorge;
Bons Serviços: Medalha de Bons Serviços e Medalha Velho Lobo;
Mérito: Medalha Tiradentes e Tapir de Prata;
Valor: Medalha de Valor.

MEDALHA DE GRATIDÃO


Criada por proposta de nove federações estaduais da Confederação Brasileira dos Escoteiros de Terra em 1947, a concessão da Medalha de Gratidão foi definida no Regulamento Técnico da UEB em 1952 e não sofreu alterações significativas desde então. Por ser condecoração mais recente, é provável que praticamente a totalidade das concessões tenham sido registradas.

É concedida a pessoas, sócias da UEB ou não, ou entidades que tenham prestado grandes e comprovados serviços a órgãos ou ao Movimento Escoteiro em geral.

A condecoração tem três graus: bronze, prata e ouro, concedidos conforme a relevância dos serviços prestados ao escotismo em qualquer nível da UEB. É presa a uma fita de cor verde e amarela em duas listas verticais, ficando a verde ao lado da linha média do corpo.

CRUZ DE SÃO JORGE

A Cruz de São Jorge é a condecoração destinada a altas autoridades e dirigentes escoteiros em sinal de reconhecimento por grandes e relevantes serviços prestados ao Movimento Escoteiro em geral ou ao nível regional de direção;

Criada provavelmente em 1945, inicialmente era concedida apenas pelas Assembléias Regionais e a Nacional. A medalha tinha um único grau, embora fosse confeccionada em prata. A diferenciação estava na cor da fita chamalote de cada Federação. No “Regulamento Técnico Geral”, de 1952, a diferenciação da concessão se fazia pela fita chamalote verde (Regiões) e azul marinho (Nível nacional da UEB). Mais tarde foram eliminadas as diferenças de cor e a Cruz de São Jorge passou a ter fita apenas na cor azul.

Em dezembro de 1977, a Comissão Executiva Nacional ratificou a proposição para a Criação da Cruz de São Jorge Ouro, cuja proposta só poderia ser feita a nível nacional. Passou, então, a ter os graus prata e ouro.

A medalha continuou sendo confeccionada em prata, mas no grau ouro, a flor de lis ao centro era feita deste metal.

Na reforma do regulamento de 1997, os graus foram abolidos. Em 2004, foi estabelecido como pré-requisito para sua concessão que o agraciado fosse portador da medalha de gratidão no grau ouro.

MEDALHA DE BONS SERVIÇOS

A Medalha de Bons Serviços é destinada a premiar a boa e eficiente atividade escoteira, só podendo ser concedida a sócios do Movimento Escoteiro. A condecoração não se destina a premiar somente o tempo de atividade. O regulamento determina que os “serviços pelos quais ela é concedida devem ter um especial caráter meritório, durante o número de anos indicado, ultrapassando os limites do de fiel cumprimento ou exercício de cargos no Movimento”.

No “Regulamento Técnico da União dos Escoteiros do Brasil”, de 1936, ela é definida com o formato atual, mas com o nome de “Medalha de Mérito”, tendo ao centro, em baixo relevo, inscritas a flor de lis e o lema “Sempre Alerta”, circundado por ramos de café e algodão, sendo usada com fita chamalote roxa. Eram concedidas nos graus bronze, prata e ouro para 10, 15 e 20 anos de atividades, respectivamente,

É possível que ela tenha sido incorporada da Associação dos Escoteiros católicos do Brasil que, em 1921, definiu em seu estatuto que a Medalha de Mérito, era de “forma circular, de ouro, com uma flor de lis ao centro e pendente de fita branca”. Ou seja, praticamente o mesmo desenho que hoje é usado na Medalha de Bons Serviços. Definição semelhante teve em 1924 no regulamento da Confederação Brasileira dos Escoteiros do Mar e em 1934 no regulamento da Federação dos Escoteiros Católicos do Brasil.

Em 1960, o livro “Princípios, Organização e Regras – POR” da UEB reduz o tempo de serviço da medalha de Bons Serviços Bronze para sete anos. A norma seguiu sem alterações nos mais de 40 anos seguintes. Em 2002, voltaram a exigir os tempos de atividades previstos inicialmente no Regulamento de 1936.

BARRAS DE OURO

Barras de Ouro são complementos da Medalha de Bons Serviços grau ouro. Foram propostas nos estudos do final da década de 1940, mas surgiram formalmente pela primeira vez no Regulamento Técnico Escoteiro da UEB, em 1952. Era concedida uma para cada cinco anos além de vinte, para ser usada sobre a fita da medalha de Bons Serviços.

Em 2002, as Barras de Ouro passaram a ser concedidas a cada dez anos a mais de bons serviços aos sócios da UEB já possuidores da medalha de Bons Serviços no Grau Ouro.

Em 2004, fez-se registrar o complemento de seriam concedidas “uma a cada dez anos a mais de bons serviços, até a conquista da medalha Velho Lobo”. Foi estabelecido também que terão as dimensões das demais barretes, sem qualquer tipo de desenho e sendo gravado no meio “30 anos” ou “40 anos”, respectivamente.

MEDALHA VELHO LOBO

Criada em 2002 foi concedida a primeira vez em 2004. É, na verdade, uma medalha de Bons Serviços destinada a premiar a boa e eficiente atividade comprovada para aqueles que completarem 50 anos de atividades e que sejam possuidores da medalha de Bons Serviços no Grau Ouro. Tem o formato circular, com a efígie do Almirante Benjamin Sodré, o Velho Lobo, “Escoteiro número 1” do Brasil.

O Agraciado com a Medalha Velho Lobo receberá diploma, medalha e respectivo barrete, ficando dispensado do pagamento de todas as contribuições anuais devidas a UEB.

MEDALHA TIRADENTES


Foi criada provavelmente na segunda metade da década de 1930 pela Federação Brasileira dos Escoteiros de Terra, sendo incorporada aos regulamentos da União dos Escoteiros do Brasil por ocasião da fusão das Federações. A medalha é presa a um colar constituído por uma fita verde nas extremidades e branca ao centro. Até a década de 1950 era usada no lado esquerdo do peito. Posteriormente passou a ser usada ao redor do pescoço.

Instituída em homenagem ao mártir da independência, é concedida a sócios do Movimento Escoteiro, Regiões Escoteiras ou Grupos Escoteiros, por atos que demonstrem ações excepcionais de devotamento ao dever, nobreza de caráter e de sentimentos, elevado espírito escoteiro ou relevantes serviços à causa escoteira.

TAPIR DE PRATA

Criada com a fundação da UEB em 1924, o Tapir de Prata sempre foi definido nos regulamentos como “a recompensa honorífica de mais alto mérito escoteiro”. Neste sentido, seguiu a tradição mundial onde cada país escolhe um animal para sua mais alta comenda e quase sempre em prata. Dada sua importância, provavelmente é a única condecoração escoteira cujas movimentações foram totalmente registradas.

Sua concessão foi iniciada na gestão de Bonifácio Antônio Borba na Presidência da UEB, em outubro de 1936. Foram concedidas simultaneamente as primeiras, na seguinte ordem:

  1. Lorde Robert Baden-Powell, Fundador do Escotismo (recebeu em 1937);
  2. Hubert Stadttheater Martin, Comissário Internacional da Boy Scouts Association, Diretor do Escritório Mundial desde sua criação até 1938. Organizador do primeiro Jamboree Mundial;
  3. Mário Sérgio Cardim, Fundador da Associação Brasileira de Escoteiros, em 1915;
  4. Benevenuto Cellini dos Santos (post mortem), um dos precursores do escotismo e criador do “Rataplan do Arrebol”;
  5. Jerônima Mesquita, uma das fundadoras do Movimento Bandeirante do Brasil;
  6. Guilherme de Azambuja Neves (post mortem), um dos diretores da Escola de Chefes e da Federação de Escoteiros de Terras e criador do Boletim Alerta, que deu origem ao informativo “Sempre Alerta”;
  7. Afonso Pena Júnior, primeiro presidente da UEB, quando Ministro da Justiça, tendo atuado no cargo, inclusive vestindo o uniforme escoteiro;
  8. Benjamin Sodré, mais expressivo difusor do Escotismo no Brasil. Assinava Velho Lobo;
  9. Gabriel Skinner, fundador da Associação Espírito Santense de Escoteiros e incentivador do Escotismo Escolar no antigo Distrito Federal.

Inicialmente, a concessão do Tapir de Prata só poderia ser feita por solicitação das federações que compunham a UEB e com aquiescência do Conselho Diretor. Em 1945, foi elevado à categoria de Ordem do Tapir de Prata, cujos membros tinham poderes e obrigações bem definidas no regulamento, inclusive com responsabilidade de velar pela intangibilidade da doutrina escoteira. Em 1952, foi incluído o pré-requisito obrigatório de que os beneficiários do Movimento Escoteiro tenham a Medalha Tiradentes há no mínimo cinco anos e “que tenham prestado novos e relevantes serviços ao Movimento Escoteiro“.

Excepcionalmente, poderá ser concedida a grandes personalidades escoteiras mundiais. Entretanto, ao longo da história, os brasileiros foram a grande maioria dos agraciados. Apenas dez estrangeiros receberam o Tapir: cinco escotistas (incluindo Baden-Powell), os três astronautas que fizeram o primeiro vôo que levou o homem a pisar na lua, um presidente e um rei.

O extremo rigor e as várias exigências para sua concessão fizeram com que nos 84 anos de sua existência fossem concedidas apenas 76 vezes.

CRUZ DE VALOR

Criada provavelmente pela Confederação Brasileira dos Escoteiros do Mar, aparece pela primeira vez no estatuto de 1924 como “Medalha de Salvamento de Vida“. Já possuía o formato da cruz de malta. Em 1934, aparece com o mesmo formato no estatuto da Federação dos Escoteiros Católicos do Brasil, mas com o nome de “Cruz de Valor“, igualmente concedida nos graus bronze, prata e ouro, mas com fita chamalote vermelha ao invés de verde.

Em 1936, foi definida nos estatutos da União dos Escoteiros do Brasil com o nome de “Medalha de Valor“. Em vez de ser confeccionada em bronze, prata e ouro, a inovação estava no fato de que os três graus tinham a cruz de malta em ouro. A diferenciação estava na cor da fita chamalote. A “Cruz de Bronze” tinha fita vermelha; a “Cruz de Prata” tinha fita azul e a “Cruz de Ouro”, fita com listas azul e vermelha.

Cada grau é concedido, respectivamente, por atos de heroísmo que envolvam pequenos, médios e grandes riscos de vida. Normalmente os fatos são analisados por comissões que estudam detalhadamente o histórico completo do caso, documentos e testemunhos antes de fazerem as recomendações finais.

Texto de Mauríco Moutinho


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Posted on 30/01/2011, in Curiosidades, Escotismo and tagged , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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